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Categoria: EDUCAÇÃO Publicado em: 03/11/2025 15:55:40 |
Paciência e disciplina são virtudes características da cultura japonesa. Fazem parte de um conjunto de práticas e valores – culturais e filosóficos – que valorizam a perseverança e enfatizam a importância do respeito e da construção gradual do sucesso.
Talvez isso explique o modo de vida – seja no ambiente familiar, seja no ambiente de trabalho – da professora Marica Ogava de Freitas, que empresta seu nome à escola recém-finalizada em Guará.
À paciência e à disciplina soma-se outra virtude própria dos orientais e seus descendentes: o trabalho ou, antes, a opção pelo trabalho árduo, com determinação, honestidade e, por que não acrescentar, com certa dose de desprendimento.
Em resumo, é com essas tintas que amigos, colegas de trabalho e ex-alunos pintam o retrato de dona Marica, que, por conta de um câncer agressivo, viveu apenas 44 anos – mesmo assim, período suficiente para deixar um legado importante na educação do município.
“Era bastante rígida, exigia que prestássemos atenção na aula. Ao mesmo tempo, dava abertura, conversava com os alunos, era educada com a gente”, afirma o comerciante Adilson Chaud Filho, secretário municipal de Saúde, sobre o período em que teve aulas de Inglês com a professora Marica no Colégio Marechal Rondon.
“Não era todo mundo que gostava de Inglês, mas a dona Marica fazia com que, mesmo quem não se interessava, prestasse atenção na aula”, recorda-se Carlos Henrique Pereira dos seus tempos de quinta ou sexta série noturna no “Nehif Antônio”.
“Quando a sala começava a sair do controle”, conta Carlos, o “Carlinhos da Santa Casa”, atualmente locutor noticiarista da Rádio Metrô FM, em São Joaquim da Barra, “aos poucos ela fazia o pessoal voltar para o lado dela. Era carismática e tinha uma paciência oriental. E era muito exigente, para que todos aprendessem.”
Filha de Sadao e Sumie Hirose Ogava, conhecidos por “Zé Okubo” e “Vó Amélia”, Marica nasceu em Guará no dia 3 de janeiro de 1952. Formou-se em Letras, com licenciatura em Português e Inglês, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Sagrado Coração de Jesus, em Bauru.
Diplomada em 27 de novembro de 1973, começou a lecionar já no ano seguinte, com aulas em Guará e Igarapava. Lá, na Escola Estadual Martinho Sylvio Bizutti, tornou-se amiga de Marly Tornatore, que se casaria com o professor Álvaro de Oliveira – recentemente falecido – e se tornaria, também, professora no Rondon, com a própria Marica.
“Foi a primeira pessoa de Guará que eu conheci. Ficamos muito amigas. Fui ao noivado dela. Todo dia passávamos na casa da Coraci e íamos a pé para o Rondon”, afirma Marly, referindo-se à professora de português Coraci Mendes de Oliveira Campos, que dá nome a uma das escolas de ensino fundamental de Guará.
Marica e Marly passaram no mesmo concurso. Quando mudou-se para Guará, Marly continuou dando aulas em Igarapava. Marica também. “Íamos de carro, à noite”, conta a amiga. “Marica era uma pessoa simples, amiga para toda hora, não reclamava de nada”, diz Marly. “Amiga dos alunos, era muito calma, mesmo assim mantinha a disciplina em sala de aula; naquela época, a gente conseguia.”
Para o concurso do Estado, Marica estudava na casa da amiga Diana Maria Chaud Tizziotti. Moravam perto uma da outra. Diana lembra que, debruçadas nas apostilas, muitas vezes flagrou Marica absorta, escrevendo “Antônio” repetidas vezes no caderno – a amiga já estava apaixonada pelo agricultor José Antônio Ribeiro de Freitas, o “Zé do Lelé”, com quem se casaria em 1977. “Era uma mulher batalhadora. Trabalhava muito. Sempre pontual. Dedicava-se tanto ao lar quanto ao trabalho”, ressalta Diana, colega de trabalho de Marica na Escola Municipal Professora Helena Telles.
Diante do sogro “sistemático”, Zé do Lelé procurou coragem para pedir a mão de Marica em casamento, num tempo em que, costumeiramente, nipônicas se casavam apenas com nipônicos. “Minhas filhas vão se casar com quem elas quiserem”, disse Zé Okubo ao futuro genro. “E você, Zé”, ele continuou, “eu gosto de você, é trabalhador, mas meio danadinho; não vá fazer coisa errada, hein...”
Uma vez casada, Marica desde o início sonhava com uma menina, tanto que já na primeira gravidez preparara um “vestidinho” – numa época em que cidades pequenas nem sonhavam com ultrassom, para se descobrir o sexo do bebê.
Nisso, porém, a biologia lhe deu as costas. A primeira gestação resultou em Jean, hoje com 46 anos, radicado no Japão. A segunda, em Sadao, advogado que, aos 44 anos, é escrevente do Tribunal de Justiça no Fórum de Guará e leciona Direito Administrativo e Constitucional na Facesb, em São Joaquim da Barra. E na terceira gestação veio Bruno, hoje com 42 anos, formado em Economia e gerente de uma das agências do banco Bradesco em Franca.
Quando Marica morreu, em 1996, os filhos eram todos menores de idade, com 17, 15 e 13 anos, respectivamente. Mas eles se recordam de lições que a mãe professora havia lhes deixado. “Vocês têm que estudar e fazer faculdade. Não vai resolver os problemas, mas vai ajudar”, ressaltam Bruno e Sadao.
E um conselho, que os então meninos buscaram seguir à risca: “Só andem com pessoas melhores que vocês”.