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Categoria: EDUCAÇÃO Publicado em: 23/10/2025 09:46:27 |
Na época do ensino primário, Enzo Mateus Amaral do Nascimento sofria bullying na escola. Os colegas o caçoavam por conta de seu peso. Um dia, Enzo correu atrás de uma colega de 5ª série que, segundo ele próprio diz, “tinha passado do limite”.
Não houve agressão. Enzo não a alcançou.
Mesmo assim, ele e a mãe foram convocados para uma conversa. A direção da escola achou melhor que Enzo estudasse em casa, com o argumento de que, por ser a maior criança da sala, alguém poderia se machucar.
Como se as gozações diárias, por conta da obesidade, não o tivessem machucado. De qualquer forma, Enzo passou a estudar em casa.
“Ficou tudo por conta da gente. Eu pegava as apostilas na escola, estudava em casa, devolvia as apostilas preenchidas e pegava outras. Mas não deu certo. Não tinha rede de apoio nenhum. Em pouco tempo desanimei. Não voltei mais à escola”, conta Enzo, que nasceu em São Joaquim da Barra e veio para Guará ainda bebê.
A reviravolta veio quando completou 18 anos.
“Pensei: vou voltar a estudar. A gente que é pobre, não tem herança, o que nos resta é o estudo”, conta ele. “Caso contrário, ia acabar me rebaixando, pobreza, drogas, essas coisas.”
Enzo procurou a Educação de Jovens e Adultos (EJA). Entretanto, a obesidade daquela época não permitia locomoção própria. Enzo necessitava de um transporte.
Um veículo da prefeitura passou a levá-lo até a Escola Municipal Náufal Antônio Mourani, que funciona, à noite, nas mesmas dependências da “Urbano de Andrade Junqueira”.
Enzo cumpriu os módulos exigidos pela EJA e, assim, concluiu o ensino fundamental. Acreditando estar preparado, inscreveu-se para o Exame Nacional de Certificação de Competências do Ensino de Jovens e Adultos, o ENCCEJA.
O exame, similar aos vestibulares, composto por quatro provas mais a Redação, validaria o ensino médio – um salto a mais, decisivo, para a escolaridade. Enzo foi aprovado, em dezembro de 2022.
“Se não fosse a EJA, não teria passado no exame”, afirma Enzo, ao atribuir ao corpo de professores o seu sucesso no ENCCEJA – ele se recorda particularmente da professora Sandra, de Português, e do professor Doni, de História.
Com o certificado do ensino médio em mãos, Enzo inscreveu-se, em março de 2023, no curso Técnico em Enfermagem da Escola Técnica Estadual Alcídio de Souza Prado, em Orlândia. O curso foi concluído no dia 17 de julho deste ano.
Enzo Mateus estagiou no Hospital Beneficente Santo Antônio, em Orlândia, onde passou a morar desde as etapas finais na Etec. Há quatro meses ele é técnico em enfermagem do hospital, contratado, “com carteira assinada”.
O serviço – banhos no leito, medicações, curativos, entre muitas outras atividades de um técnico em enfermagem – é puxado, no esquema 12 por 36, das sete da noite às sete da manhã, o que não o assusta.
“Essa é uma área que eu gosto”, explica Enzo. “Às vezes fico sobrecarregado de trabalho, mas só Deus sabe o quanto eu queria.”
Os próximos planos dele são obter a CNH, comprar um carro e cursar o ensino superior, muito provavelmente no Claretiano, em Batatais; a dúvida está entre Enfermagem-Padrão ou Direito.
“Fazer uma faculdade era uma realidade completamente distante de mim”, ressalta Enzo. “Ter feito a EJA possibilitou que eu estivesse onde estou hoje.”