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Categoria: ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO Publicado em: 18/09/2025 14:43:12 |
Segundo o Censo Brasileiro de 1920, a expectativa de vida para quem nasceu no início do século passado era de 34,5 anos. Pode-se concluir, portanto, que Ana Custódio Soares bem dizer triplicou a meta.
No dia 17 de agosto último, dona Ana completou 100 anos de idade, rodeada pelo carinho de boa parte dos sete filhos vivos, dos 19 netos, 25 bisnetos e dois tataranetos. Vizinhos, amigos, pessoal da igreja – muita gente foi parabenizá-la pela data centenária.
Naquele domingo, o almoço de comemoração movimentou a casa onde Ana Custódio Soares vive desde 1965, na Avenida Antônio Ribeiro dos Santos, no coração do bairro mais populoso e dos mais tradicionais de Guará, a Vila Vitória.
Sessenta anos atrás, ela e a família deixaram a Fazenda Santa Luzia, em Itirapuã, quase divisa com Minas, em busca de uma vida melhor. O marido Benedito Soares tinha ouvido falar de Guará. Vieram pra cá com os oito filhos – aqui nasceria o caçula, Carlos Roberto.
Benedito adquiriu terreno com uma casa de três cômodos na Vila Vitória. Na época, conta dona Ana, o bairro não contava com água, nem luz, nem esgoto, nem asfalto. Lavava-se roupa no Rio Verde. A rede elétrica estava ‘parada’ na altura da escola da Vila Maria, hoje Nehif Antônio.
Em Guará, como única opção, Benedito Soares e os filhos mais velhos encararam o trabalho na roça. As lavouras eram predominantemente as de algodão. Fora da época de colheita, arrancavam tocos em sítios e fazendas.
Benedito Soares decidiu que largaria a vida de pau de arara. Arrendou três alqueires pros lados do Rio Verde, onde a família passou a cultivar arroz, milho e legumes, que comercializavam na Ceasa de Ribeirão Preto. Ana cuidava da casa e da filharada.
“Aqui a vida foi muito melhor”, afirma a centenária Ana, referindo-se a Guará. “Aqui ficamos livres, a gente não ficava na mão do patrão.”
A vida não era nenhum mar de rosas; porém, um paraíso se comparado à condição anterior, em Itirapuã, onde Ana e família viviam em regime de quase escravidão. Todos trabalhavam na capina de café, arroz, milho. “Esse era o nosso serviço”, afirma Ana, que guarda lembranças esparsas de muitas coisas daquele cotidiano.
Ana lembra que havia escola na colônia, mas o pai não deixava os filhos estudarem. Lembra da primeira comunhão, provavelmente aos sete anos de idade, em uma cerimônia na cidade, “ajoelhada”, ao ar livre, em um dia de vento e frio em Itirapuã.
Lembra de uns raros momentos de alegria e convivência comunitária, como a Festa de Reis, a festa de São João e, em especial, do congado, manifestação cultural que combina elementos africanos e católicos, celebrada através de danças, cantos e rituais. “Aquelas coisas mais lindas”, nas palavras dela.
Ana se recorda de serem acordados por uma buzina, tocada sempre às 6 horas, convocando para mais um dia de trabalho os moradores da colônia. Todos tinham, obrigatoriamente, de passar pela porteira às 6h30, sob risco de serem denunciados ao patrão. “Era sofrido...”, diz Ana.
Ana não recorda de ganharem salário. Conta que recebiam uma ficha para cada saca de café colhida. As fichas eram trocadas por mantimentos em um armazém na cidade, a 15 quilômetros da fazenda.
“Nossa casa não tinha cama, não tinha cobertor, a gente andava tudo descalço, não tinha remédio”, afirma Ana. “Às vezes meu pai saía de facão na mão e voltava com um saco de raízes. Era assim que a gente se curava.”
Castigo físico, prática rotineira no tempo da escravidão, não existia mais, ao menos na memória de Ana Custódio Soares, que mantém viva, no entanto, a visão do pelourinho (no qual escravizados eram amarrados para castigo público na época colonial do Brasil), então desativado.
Ainda havia – embora também desativada – a senzala, com seus grilhões. “Não deixavam a gente chegar perto”, diz Ana, que, por outro lado, se lembra do caldeirão em que era feita a comida para os moradores da colônia – este, sim, um resquício da época da escravidão, abolida no Brasil em 1888, um ano antes da queda do Império, 37 anos antes de Ana nascer. O caldeirão era o mesmo em que era preparada a comida dos escravizados.
Curiosamente, as lembranças mais amargas daquela época são de dentro da própria casa. E envolvem o comportamento do pai de Ana, José Custódio, em relação à esposa. Após décadas sendo agredida pelo marido, Ana Brígida de Jesus foi internada em um sanatório em Ribeirão Preto, onde faleceu.
“Minha mãe ficou louca, de tanto apanhar”, conta Ana Custódio, que muitas vezes, assim como outros irmãos, agarrava-se à cintura da mãe na tentativa de evitar mais uma agressão, perpetrada com qualquer coisa que o pai encontrasse pela frente – incluindo tições que sacava do fogão a lenha. José Custódio era carreiro e meeiro de um pedaço de terra na Fazenda Santa Luzia.
A sorte de Ana Custódio foi ter-se unido a um homem que rompeu com a trágica relação masculina com as mulheres de meados do século passado. Com Benedito Soares, três anos mais novo que ela, Ana – assim como seus próprios pais – teve nove filhos.
Sete deles estão vivos e, com exceção do caçula Carlos Roberto, que mora em Franca, todos estão em Guará, a começar por José dos Reis e Luís “Garrafão”, que moram com a mãe – aos 66 anos, Zé dos Reis toca a loja de roupas e calçados instalada na parte da casa da família.
Por aqui também residem Maria Aparecida (a Nininha), Benedito (o Ditinho), Antônio (o Tonho) e João Batista (o Sabiá). Lázara e Sebastiana já morreram.
A única imagem que a família tem de Benedito é uma foto de 12 de outubro de 1976, dia de Nossa Senhora da Aparecida, clicada durante visita ao santuário de Aparecida. Nela, aparece o casal junto ao caçula Carlos Roberto, bem menino.
Aos cem anos, a saúde de Ana Custódio Soares anda muito bem, obrigada. Remédio ela toma dois, um para o coração, preventivo, e outro, também preventivo, para evitar o diabetes.
A dificuldade em locomoção não a afasta da religião. Na TV, assiste a várias missas durante o dia. E comunga, com a hóstia que recebe, em casa, do ministro da eucaristia.
Até tenta mexer com panelas e louças, “mas eles não deixam eu fazer comida nem lavar a pia”.
Atualmente, Ana usa andador, com o qual se movimenta pelos cômodos da casa, muitas vezes em busca da garrafa de vinho que os filhos mantêm escondida, “para ela não abusar”.
É também com o andador que, vez ou outra, Ana dá alguma escapada pela calçada, como que para comunicar à toda Vila Vitória que está bem, à espera de outros carnavais.