A VIA CRUCIS DE LUANNY NA LUTA PELO RENASCIMENTO

Categoria: SAÚDE
Publicado em: 08/09/2025 08:29:00

 

Há dois mil anos, um renascimento, espiritual, professou a vitória sobre a morte e o pecado, ofereceu à humanidade esperança de vida eterna e um novo começo. E tornou-se pilar central de uma fé que reúne 2,4 bilhões de pessoas, um terço da população mundial.

Há cerca de 500 anos, outro renascimento, este mais terreno, também mudou os rumos da humanidade, ao romper com a mentalidade medieval e marcar a renovação em áreas fundamentais como artes, ciências e filosofia.

Renascimento tem a ver com luz. E foi justamente isso que ocorreu no seio de uma família guaraense, que há dois anos comemora, todos os dias, o renascimento de uma menina que, com otimismo, resiliência e fé, superou uma doença gravíssima.

Luanny Gabrielle Silva Chavaski é natural de Santos, no litoral paulista. Com dois anos e alguns meses de idade, veio morar em Guará. Cansada do relacionamento tóxico com o pai de Luanny, a mãe dela, Sandra Mendes, aceitou o convite do guaraense Elvis Deivide Costa Silva, a quem conheceu pelas redes sociais.

“Vem pra cá ficar comigo”, propôs Elvis, alfaiate por tradição de família, atualmente funcionário do setor de usinagem da Busa Indústria e Comércio. Mãe e filha mudaram-se para Guará, com todo o receio que uma mudança radical assim pode provocar.

“Foi a melhor decisão que tomei na vida”, afirma hoje Sandra. “O Elvis salvou a minha vida, e da minha filha também. Aqui encontramos a paz. A família dele nos acolheu de braços abertos.”

Bateu a pandemia, todo mundo recluso na casa da dona Lindy, mãe de Elvis. Sandra estranhou que Luanny tivesse ficado seguidamente gripada. No Dia dos Pais, um domingo chuvoso de 2021, a menina, então com quatro anos de idade, ficou “muito quieta”, segundo Sandra. No dia seguinte, apresentou febre, com inchaço na nuca. Na terça-feira, caroços apareceram na barriga.

A família recorreu à rede pública de saúde de Guará. Obtiveram um encaixe na agenda do médico plantonista, que avisou Sandra: pode ser uma hérnia, pode ser uma distensão e, se não for uma coisa nem outra, pode ser algo bem pior.

Luanny foi internada na Santa Casa, onde fez os primeiros exames. No mesmo dia, uma ultrassonografia realizada em Ituverava confirmou o que se temia: Tumor de Wilms, com 12 centímetros de extensão.

A pequena Luanny estava com câncer. No rim.

“Chorei muito”, conta Sandra. “Deus, por quê?”, ela questionou. A partir daí, a vida de todos – Sandra, a menina, Elvis, a família inteira – transformou-se num mar de incertezas, de angústia pelo o que poderia vir e, ao mesmo tempo, em uma via crucis em busca do tratamento adequado.

Tudo aconteceu com a velocidade do vento.

Diagnosticado o tumor, a preocupação passou a ser arrumar uma vaga em uma unidade de saúde especializada. Sandra conta que, ao voltar para casa, ainda em meio ao turbilhão daquele dia, meia hora depois o telefone toca. “Faça sua mala e esteja aqui em uma hora”, disse a ela alguém da Santa Casa de Guará. A vaga no Hospital do Câncer, em Franca, havia surgido em tempo recorde.

Em Franca, a equipe médica decidiu que, antes da cirurgia no rim, Luanny passaria por quimioterapia, durante duas semanas, para que o tumor regredisse de tamanho, de maneira a se afastar da aorta – o tumor estava próximo demais da mais importante artéria do corpo humano.

A quimioterapia surtiu bom resultado. O tumor regrediu para 5 centímetros. Marcou-se a cirurgia. Sandra lembra de naquele dia, 20 de setembro de 2021, ter feito “uma manhã de sol bem bonito”.

A previsão era de um procedimento demorado, de até doze horas, oito no mínimo. Surpreendentemente, quatro horas depois, dr. Robson deixou o centro cirúrgico, conta Sandra, para dar o recado: “Parabéns, a cirurgia foi um sucesso”.

Seria necessário, a partir daí, um ano de quimioterapia, o que significava idas e vindas, exames pra lá e pra cá, viagens constantes Guará-Franca, efeitos colaterais... A comemoração pelo procedimento bem-sucedido misturou-se ao temor de que, no decorrer do processo, algo pudesse dar errado.

Aos quatro anos de idade, Luanny foi matriculada no ensino infantil em Guará. E a vida parecia ter voltado ao normal. Até uma tomografia de rotina revelar a existência de um novo tumor, um nódulo de 1,9 cm no pulmão direito. “Meu mundo caiu”, conta Sandra, que se desesperou: “Esse diagnóstico era pior que o primeiro”.

Para combater o novo tumor, Luanny e a família iriam encarar um cenário ainda mais pesado, um ciclo de tratamento mais agressivo. As sessões de quimioterapia, desta vez, se dariam com a menina internada. A resposta do corpo de Luanny, contudo, foi positiva. O tumor regredia. “Cada milímetro a menos era motivo de festa”, afirma Sandra.

A químio venceu o tumor no pulmão, a ponto de, na ala oncológica do Hospital do Câncer de Franca, Luanny tocar o “Sino da Vitória”, o gesto simbólico profundamente buscado por todos os pacientes de câncer e familiares. O sinal de que o tratamento terminara. O sinal da vitória.

Mesmo assim, ficou estabelecido um novo protocolo. A equipe médica de Franca colocou o caso de Luanny na lista de tratamento com imunoterapia, que busca estimular o próprio sistema imunológico a reconhecer e combater as células tumorais.

“Enquanto a quimioterapia e a radioterapia atacam diretamente as células cancerígenas, e também podem afetar células saudáveis, a imunoterapia age de forma diferente: ela ‘desperta’ ou reforça as defesas naturais do organismo contra o câncer”, explica o diretor executivo da Santa Casa de Guará, Túlio Chaud Colferai.

“Em alguns casos, a imunoterapia gera uma ‘memória imunológica’, ou seja, o corpo aprende a reconhecer o câncer e pode prevenir que ele volte”, acrescenta Colferai, que acompanhou o caso de Luanny na época em que comandava a Secretaria Municipal de Saúde. “A imunoterapia é feita porque, em muitos pacientes, o sistema imune sozinho não consegue vencer o tumor. O tratamento dá novas armas ao paciente, ou retira os bloqueios que o câncer cria, aumentando as chances de controle ou cura.”

A imunoterapia implicava, no caso de Luanny, em um transplante de medula. A via crucis dela mudava de estação: de Franca para Barretos, no Hospital de Amor.

A família de Luanny foi avisada de que as quimioterapias que a garota havia enfrentado até então seriam “nada” em comparação à que teria pela frente, para o transplante. Seria “uma bomba”, que mataria as células ruins e muitas das boas também.

Em linguagem vulgar, o sistema imunológico dela seria “resetado”. Luanny entraria em estado de neutropenia, em que o organismo experimenta uma extraordinária redução de neutrófilos, um tipo de glóbulo branco no sangue, o que aumenta exponencialmente o risco de infecções graves, especialmente com bactérias e fungos.

Luanny chegou a pesar 12 quilos, com feridas generalizadas. “Quando ia dar banho nela, higienizá-la, eu chegava a contar os ossinhos no corpo”, relata a mãe.

Em linguagem ainda mais grosseira, porém necessária para entender a gravidade do caso, a menina Luanny, com a imunidade “zerada”, estaria praticamente “morta”, “sem vida”, por alguns momentos, à espera da aplicação do sangue com células-tronco saudáveis que pudessem reagir favoravelmente junto ao organismo e, com isso, a “ressuscitassem”.

Assim foi feito e, após 40 dias em Barretos, foi constatado, no dia 21 de julho de 2023, que a medula “pegou”, termo popular que define o momento em que a medula óssea transplantada começa a funcionar normalmente no organismo do paciente, produzindo células sanguíneas saudáveis – um marco importante no processo de recuperação, que indica que o transplante foi bem-sucedido.

No dia 20 de junho de 2017, em Santos, a 480 quilômetros de Guará, Luanny Gabrielle Silva Chavaski nasceu. No dia 21 de julho de 2023, em Barretos, a 100 quilômetros de Guará, Luanny renasceu.

“Acompanhar a trajetória dessa menina foi mais do que um dever de gestor público; foi um chamado à contemplação da existência, à percepção de que a vida é sopro, mas pode ser também milagre”, afirma Túlio Colferai. “Lembro do transplante de medula, ponto alto dessa travessia: um gesto de ciência e amor que reacendeu a esperança e nos aproximou da cura.”

O “Parabéns a você” cantado pela equipe médica e de enfermagem de Barretos no dia em que a medula “pegou” foi apenas a primeira das muitas comemorações de que Luanny viria participar dali em diante.

No aniversário de renascimento, recentemente festejado, Luanny ganhou uma excursão para curtir o Parque do Gorilão em Ribeirão Preto e uma investida gastronômica para comer o que mais gosta, pizza, na companhia da meia-irmã Sther, do pastor Valdir Soares e da pastora Marilza Machado.

Com os novos cabelos e a hiperatividade típica de uma menina de oito anos, atualmente Luanny estuda na Escola Municipal Helena Telles, agora já no ensino fundamental. Faz informática e balé na Fundação Sinhá Junqueira e tem sessões de psicologia e fonoaudiologia, também semanais, no CAPS.

Todas essas atividades são gratuitas, assim como gratuito foi todo o tratamento médico, do primeiro atendimento em Guará aos mais especializados procedimentos em Franca e Barretos, sob cobertura do Sistema Único de Saúde (SUS).

“Tivemos atendimento maravilhoso, sempre muito humanizado”, afirma Sandra Mendes. “Se estivéssemos na Baixada”, acrescenta ela, referindo-se a Santos, “ficaríamos meses na fila. Deus trabalhou para que pudéssemos estar em Guará.”

André Pereira, que transportou Luanny e Sandra muitas vezes para Franca e Barretos, em carros da Secretaria Municipal de Saúde, lembra que, mesmo diante de um quadro reconhecidamente grave, elas – em especial a garota – nunca perderam a fé, a confiança e o bom humor. “Luanny estava sempre sorrindo, mesmo na época em que caíram os cabelos”, conta Pereira.

O bom humor e a confiança foram manifestados novamente, desta vez em público, no dia em que pegaram a estrada para um momento especial. Na traseira do carro, escreveram: “Buzine! É a minha última quimioterapia”.