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Categoria: ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO Publicado em: 04/09/2025 11:17:05 |
Nascido em Medeiros Neto, município do extremo-sul da Bahia, na divisa com Minas, Raimundo da Costa Palmeira completa 59 anos de idade nesta quinta-feira, 4 de setembro. O presente, todavia, chegou com dois dias de antecedência: na noite da última terça-feira, dia 2, Raimundo recebeu na Câmara Municipal o título de Cidadão Guaraense.
Proposto por Luiz Carlos Batista Júnior e aprovado por todos os demais vereadores, o título é o reconhecimento do município ao trabalho exercido por ele nos últimos 25 anos, como inspetor de alunos. Nessa função, Raimundo ganhou o respeito e a admiração de toda a comunidade – alunos, professores, funcionários – das escolas em que trabalhou.
São famosos o “bom dia” que Raimundo – ou simplesmente Tio Rai – dirige a todos, todos os dias, em todas as salas de aula; as brincadeiras que inventa para distrair a criançada durante os recreios; e o algo a mais que faz questão de realizar, como a “Caça ao Tesouro”, promovida nos finais de ano, quando os alunos têm de localizar um embrulho com um pouco de dinheiro – coisa aí de uns 200 reais – que ele tira do próprio bolso e também arrecada junto aos colegas de escola.
Estar em meio à correria e à gritaria de 80, 90, 100 moleques cheios de energia pode até ser a mais barulhenta, mas nem de longe é a atividade mais estressante e perigosa que Raimundo da Costa Palmeira enfrentou na vida.
Ao deixar a Bahia, Raimundo passou dez anos na Grande São Paulo, ganhando o pão em metalúrgicas, indústrias alimentícias e, também, como segurança de empresas. Como vigilante em um shopping ainda em obras na Vila Leopoldina, na zona oeste da capital paulista, passou o maior sufoco da paróquia: em um dia de pagamento dos funcionários, ele foi feito refém por uma quadrilha armada até os dentes.
Antes de ser liberado pela quadrilha, já perto da Marginal Pinheiros, Raimundo – junto a outros reféns – foi usado como escudo humano pelos assaltantes, que, já de posse dos malotes de dinheiro, disparavam rajadas de metralhadora para todos os lados, preparando a fuga.
O episódio, ocorrido em 1996, foi a gota d’água para Raimundo buscar ares mais tranqüilos. No ano seguinte estava em Guará, na companhia de Célia Maria Ferreira, com quem se casaria e teria o filho Jonathan, que, formado em Logística, atualmente trabalha na área administrativa de uma usina em Piracicaba.
Curiosamente, com pouquíssimo tempo de Guará, Raimundo testemunharia outro assalto, ao entrar inadvertidamente no Bradesco e constatar que o banco estava sendo assaltado – Raimundo acabaria no chão, como todos os outros que estavam lá.
Em Guará, Raimundo atuou como servente de pedreiro e fez outros bicos até passar em concurso municipal para inspetor de alunos, atividade que exerce até hoje e motivou a homenagem prestada pela Câmara de Vereadores.
Depois de 18 anos na “Latifa Salomão Migliori” e dois anos na “Helena Telles”, já vai para seis anos que Tio Rai atua na Escola Municipal de Educação Básica Professora Adelaide Garnica.
Por ser uma unidade com regime de tempo integral, na “Adelaide” os recreios acontecem por faixa etária. Primeiro, são liberados para o lanche, no pátio, os alunos de 1º a 3º ano. Vinte minutos depois, é a vez do pessoal de 4º e 5º ano.
Quem acompanha sabe a algazarra que é. Raimundo e os demais inspetores da escola têm trabalho de sobra, para manter a disciplina de 208 alunos.
“Tem que ter muita paciência, mas na verdade tem que gostar do que se faz. Gosto da molecada, gosto de criança”, afirma Tio Rai. “Tem hora que você tá brabo com algum aluno, mas logo depois já tá abraçando ele, ou seja, a gente meio que vira criança também.”