A MISSÃO DA VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA: GARANTIR TRATAMENTO A PORTADORES DE DOENÇAS CONTAGIOSAS

Categoria: SAÚDE
Publicado em: 30/04/2025 11:44:30

 

Dentre os vários setores e departamentos que compõem a rede pública de saúde, todos de fundamental importância para a população, um deles lida com um ambiente particularmente perigoso: o das doenças altamente contagiosas, como a hanseníase e a tuberculose.

O combate a essas doenças está a cargo da Vigilância Epidemiológica. Em Guará, a equipe é composta pela técnica em enfermagem Glória Aparecida França, pela médica pneumologista Renata Tristão Rodrigues, pela assessora técnica Vanessa Seleguim e pela enfermeira Ana Celeguim.

O local de trabalho delas é o Centro de Saúde, na Vila Vitória. Ana é a responsável pelo setor. Renata presta atendimento aos pacientes e Vanessa abastece o sistema do DRS-Franca com os dados coletados pelo trabalho de toda a equipe, dados que vão balizar pesquisas, análises e ações de controle e prevenção.

Glória França há 28 anos trabalha na linha de frente da Vigilância Epidemiológica. Por ter contato direto com os pacientes, Glorinha – como é conhecida por todos – coleciona muitas histórias, quase todas tristes, de negligência que ainda leva muitas pessoas a contraírem doenças que deveriam estar erradicadas.

Glorinha administra – muitas vezes em domicílio – os medicamentos prescritos pela médica Renata, para que os pacientes não tenham o tratamento interrompido. A tuberculose ataca principalmente os pulmões, enquanto a hanseníase afeta a pele e nervos. Ambas, porém, são transmitidas pelo contato direto entre as pessoas, por gotículas de tosse ou espirro e pelo compartilhamento de objetos.

Essa última causa explica, por exemplo, o perfil dos portadores de tuberculose, quase todos jovens usuários de drogas, que compartilham cigarros de maconha, canudos para cheirar cocaína ou latas nas quais fuma-se crack.

Eles moram em bairros periféricos, possuem baixo poder aquisitivo e normalmente frequentam ambientes insalubres como as “biqueiras”, locais onde vende-se e consome-se drogas. Entre pessoas de nível social maior, a tuberculose e a hanseníase podem ser contraídas também pelo compartilhamento de vapes (cigarros eletrônicos) e narguilés (nos quais a fumaça passa por um filtro d’água antes de ser aspirada).

Quando os pacientes deixam de procurar o Centro de Saúde, Glorinha vai atrás deles para evitar que interrompam o tratamento e disseminem as doenças. “Antigamente, Guará chegou a ter apenas um paciente com tuberculose; hoje, são nove”, afirma Glorinha, que guarda com muito cuidado as fichas deles – assim como as fichas de três hansenianos – na escrivaninha da sala em que trabalha.

Ao executar seu trabalho, em residência e em biqueiras, Glorinha utiliza máscaras para evitar contágio e, na volta, lava as mãos constantemente. “Nunca peguei doença, por Deus”, diz ela, que chegou a utilizar um carro disponibilizado pela Secretaria de Saúde para chegar aos pacientes e ultimamente, na falta dele, ia mesmo de bicicleta.

Em quase três décadas de trabalho, Glorinha conta ter adotado a paciência e o carinho como armas de abordagem aos pacientes, quase sempre arredios ao tratamento. Na base da insistência, ela chegou a conquistar a confiança de parte dos pacientes. Não raro, algum deles chega ao Centro de Saúde e é direto com as recepcionistas: “Quero falar com a doutora Glorinha”.

Em uma ocasião, ela se recorda, o jovem tuberculoso, usuário de drogas, chegou a empurrá-la, com bicicleta e tudo. “Não volta mais aqui”, ordenou o paciente, aos gritos. “Volto sim!”, retrucou Glorinha, consciente de sua missão como profissional de saúde.