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Categoria: ESPORTE Publicado em: 22/04/2025 15:20:18 |
O guaraense José Augusto Lopes da Silva lançou, em 2024, um livro em que conta sua trajetória de superação, determinação e conquistas. Com 138 páginas, o livro é uma miscelânea de textos relatando passagens de Guto pela música, pela educação e, sobretudo, pelo esporte.
Uma das passagens mais saborosas, curiosamente, não está no livro. Trata-se do episódio em que Guto foi convocado por Zagallo, em 1971, para um treino da Seleção Brasileira, então tricampeã mundial.
Guto era do time júnior do Fluminense e Zagallo, técnico dos profissionais. A Seleção, com quase todos os craques do elenco campeão no México, treinaria no Maracanã para o jogo de despedida de Pelé, no fim de semana seguinte.
Jairzinho, o Furacão da Copa, por ter feito gol em todos os jogos do Mundial de 1970, tinha sido submetido a uma cirurgia. E o Rei encontrava-se em Santos. Para completar os times do treinamento, Zagallo chamou dois juniores do Fluminense, um para o lugar de Pelé, outro para o lugar de Jair.
“Imagina só... Treinei no time que tinha Rivelino, Gerson, Dirceu Lopes, Piazza e por aí vai”, afirma Guto, que ao menos por um dia foi treinado por Mário Jorge Lobo Zagallo. No dia 18 de julho de 1971, na última partida de Pelé com a amarelinha, o Brasil empatou com a Iugoslávia por 2 a 2, no Maracanã, diante de 138.573 pagantes.
Ainda na equipe de juniores do Fluminense, outra grande passagem: Guto voltava de uma contusão quando foi relacionado para um Fla-Flu decisivo, segundo ele valendo a Taça Tereza Herrera, torneio espanhol de início de temporada que, em 1971, foi realizado no Rio de Janeiro.
Parte dos profissionais ainda estava de férias e, por isso, alguns juniores foram relacionados. Zico atuou pelo Flamengo, que ganhava por 1 a 0 – para o Fluminense bastava o empate – quando Guto entrou jogo. “Nos 30 minutos finais, o treinador me chamou e eu entrei. Houve um escanteio pra nós. Fiquei atrás do Abel, nosso zagueiro, que era muito alto. A bola passou por ele e sobrou pra mim. Peguei de sem-pulo e fiz o gol do título”, conta.
Para Guto, de fato, aquele ano foi recheado de grandes passagens. Em 1971, a Copa São Paulo de Futebol Júnior, hoje considerada a maior competição de categoria de base do mundo, pela primeira vez recebeu equipes de fora do Estado de São Paulo. O Fluminense foi o campeão. O guaraense Guto jogou quatro partidas e anotou cinco gols. O título foi decidido nos pênaltis, contra o Botafogo. Guto deixou o dele.
O curioso é que não era para Guto Lopes ter jogado no Fluminense e, sim, no Vasco. O juvenil cruzmaltino, com Roberto Dinamite, tinha estado em Guará para um amistoso com a Guaraense, no velho estádio Arthur Alves dos Santos. Dinamite abriu o placar e a AAG virou com gols de Guto e Adilson Chaud.
A atuação de Guto valeu um teste no Rio de Janeiro, levado por José Vital, pai de Paulinho, que atuava no juvenil do Vasco. Chegando lá, a decepção: “O treinador do Vasco disse na minha cara que não gostava de ponta baixinho. No mesmo dia fui levado para um treino no Fluminense”.
No Flu, o treinador era Pinheiro, zagueiro da Seleção na Copa de 1954. “Gosto de ponta baixinho”, disse Pinheiro, que levou Guto para a Copinha. “Na volta ao Rio, pelo início do Campeonato Carioca, contra o América, no Maracanã, fiz um gol de cabeça com o meu 1,62 metro. O goleiro era o País, que depois jogou no time titular do América.”
Nascido em 26 de abril de 1953, Guto começou a jogar na Guaraense muito cedo. Com onze anos já era titular do infantil, com o treinador Tufi Chaud. Depois passou pelo juvenil, treinado por Loló e Gil Junqueira. Com 14 para 15 anos, estava jogando a primeira partida no time principal, em Taquaritinga.
A passagem pelo Rio de Janeiro terminou por conta de uma contusão no joelho, que o afastou por quase um ano. “Nesse período, as coisas mudaram. Acabei indo para o Noroeste de Bauru, fiz alguns amistosos, mas ainda não estava bem, então preferi voltar para Guará”, ele conta.
Guto começou a fazer faculdade de matemática e a trabalhar na lotérica do pai. Voltou a jogar alguns amistosos, atuou alguns anos pelo Orlândia nas divisões inferiores do Campeonato Paulista e chegou à Francana, em 1975. “Jogava e estudava. Terminei a faculdade e, em 1979, resolvi deixar o futebol.”
Casado com Ângela, morou por dez anos em São Paulo até se mudar para São José do Rio Preto, onde participa do tradicional “racha do Jaime”. Aos 71 anos, professor aposentado e músico diletante, é um atleta amador que coleciona medalhas e troféus em provas de pedestrianismo – chega a correr 5 km em 26 minutos.
Em 2023, correu a São Silvestre com uma camiseta estampada com a foto do pai, Chico Barbeiro, que, décadas antes, mesmo com idade avançada, queria porque queria disputar a prova pelas ruas de São Paulo “para colocar aqueles quenianos em seu devido lugar”.
Falecido em 2002, aos 83 anos, Chico Barbeiro não conseguiu realizar o sonho de desbancar Paul Tergat e seus conterrâneos. Mesmo assim, Guto não deixou por menos. “Naquela São Silvestre, terminei a prova na Avenida Paulista, recebi minha medalha e a ofereci ao meu pai, meu campeão.”
Pela longa trajetória no futebol amador e profissional, Guto Lopes vai ser homenageado pelo município na noite deste sábado, 11 de janeiro, durante a cerimônia de abertura da 14ª Copa Guará de Futebol Infantil, no Ginásio de Esportes.