COPA GUARÁ DE FUTEBOL: AS IDAS E VINDAS DE CESINHA, BOLEIRO RAIZ DE GUARÁ

Categoria: ESPORTE
Publicado em: 22/04/2025 15:12:13

 

A bola sempre fez parte da vida de Júlio César de Souza. Desde tenra idade, de tênis kichute ou mesmo descalço, Cesinha frequentava campinhos, de terra e de grama, em lugares dos quais, hoje, só restam lembranças entre os guaraenses com mais de 50 anos.

Como a chácara do seo Hélio, perto do clube, no lado de baixo da Rua Deputado João de Faria, atualmente ocupada por residências, hortas e a Casa da Criança.

Como o campinho do Zé Maria, na chácara pertencente ao português mais conhecido de Guará, que dá nome à rua que, naquela época, era chamada de Portugal.

Como o campinho da Coloinha, que ocupava a parte final do quarteirão em frente à chácara dos Nicollela, entre as ruas Capitão Domiciano Cristino e José Bonifácio.

Como o campo do Curimba, este de tamanho oficial, com traves grandes e um gramado com muitos buracos, no amplo terreno que atualmente abriga a Fundação Sinhá Junqueira.

E, sobretudo, o lendário estádio Arthur Alves dos Santos, o campo da Associação Atlética Guaraense, no final da Rua Campos Sales, no qual Cesinha exibiu raça e habilidade nas categorias infantil e juvenil e, depois, no time principal da AAG, sob batuta de treinadores como Djalma Henares, Tufi e Adilson Chaud.

A raça e a habilidade – suas principais características como jogador – o levaram aos juniores do Botafogo de Ribeirão Preto, em 1983, aos 16 anos de idade, pelas mãos do amigo e conterrâneo Betão, que lá jogava, entre os profissionais.

Na época, o Botafogo estava de olho em um centroavante do Flamengo e, além de dinheiro, o clube carioca queria levar um tal de Glauco para o time principal e Cesinha para as categorias de base. A diretoria do Pantera não o liberou para o Flamengo. Chateado, Cesinha, com saudades da família, voltou para casa.

No ano seguinte, por indicação de Daniel Nogueira, que lá atuava como lateral-esquerdo, Cesinha foi treinar na base do América de Rio Preto. Arrebentou no treino, segundo as palavras do próprio Dié, que ouviu do seo Pedro, diretor esportivo dos juvenis, que Cesinha seria o camisa 10 do time em um amistoso no sábado seguinte.

Alegando gripe forte e febre, porém, Cesinha pegou carona com Betão – que treinava em Rio Preto para manter a forma, enquanto resolvia pendências com o América do México – e, com saudades dos amigos, voltou para casa.

Ainda na primeira metade da década de 1980, nova oportunidade de ouro: por indicação do irmão mais velho, Marquinhos, que havia atuado com Cilinho no XV de Jaú, o treinador aceitou testá-lo entre os juniores do São Paulo.

Alojado no Morumbi, Cesinha treinou durante quatro meses no Tricolor. Agradou Cilinho e os diretores da base. Contudo, achou que São Paulo era “cidade de doido” e, com saudades da namorada Claudinéia Galante, voltou para casa.

Em Guará, Cesinha ignorou apelos para que retornasse ao Morumbi. Em vez disso, arrumou emprego na extinta fábrica de fertilizantes Elekeiroz e consolidou a relação com Claudinéia, com quem se casou em 13 de abril de 1991.

Dessa união nasceram Rafael, atualmente com 33 anos, e Júlia, de 26, mãe de Luísa, cinco anos, “o amor da vida dele”.

Ainda moleque, Cesinha já havia tido experiências de trabalho, como servente de pedreiro do pai Nildo e como auxiliar do eletricista Maurinho.

Ao deixar a Elekeiroz, abriu o “Bar do Cesinha”, na Vila Maria, perto de onde a família sempre havia morado. Lá, servia cerveja e petiscos aos clientes que, majoritariamente, falavam sobre futebol e alimentavam um mural com fotos de times amadores da cidade.

Cesinha deixou o bar ao vencer licitação para administrar o Terminal Rodoviário. Bancava as despesas com limpeza e segurança, enquanto explorava a lanchonete e recebia taxas das empresas de ônibus pela venda das passagens no guichê – e engordava as receitas com a venda de fichas e cartões telefônicos, em especial à noite e nos fins de semana, nos tempos dos orelhões.

Vencido o período da licitação, abriu uma fábrica de calçados femininos em sociedade com o irmão Nildinho e o amigo Luís Veiga, que tinha morado em Franca e entendia do assunto. Fundada em 2005, a “Tribo d’ Salto” chegou a empregar 160 funcionários e produzir três mil pares de tamancos de madeira por dia, comercializados em todo o Brasil e exportados para países como Portugal, Chile e Uruguai.

A fábrica entraria em declínio na pandemia do coronavírus, até encerrar as atividades em 2021, período que coincidiu com o diagnóstico de tumor no pâncreas de Cesinha. “Meu pai teve um câncer muito agressivo”, conta o filho Rafael. “A estimativa dos médicos era de que tivesse de três a seis meses de vida. Mesmo assim, meu pai ainda viveu três anos. Ele lutou muito.”

Cesinha perdeu várias oportunidades de se tornar um profissional da bola, mas jamais abandonou o futebol. Na época da Elekeiroz, pedalava de volta para casa na hora do almoço para amenizar os quilos a mais, enquanto jogava pela Ituveravense, nos finais de semana, pela Terceira Divisão do Campeonato Paulista.

Como na época de adolescente, passou a frequentar os muitos campos de Guará, campos, agora, de futebol society, na chácara do Valmir, na chácara do Foroni, no sítio do Geraldo, na sede da AABB, na chácara do Mofio, na área de lazer do Quilim.

Perto do Natal, durante alguns anos, embrenhou-se no famoso embate entre “Baianos” e “Turcos”, que envolvia os descendentes de libaneses (os Tannous, os Chaud, os Abboud e outros) contra os Souza e os Lopes da Silva, estes últimos filhos de Chico Barbeiro.

Quem assistiu afirma que os jogos entre “primos” e “brimos”, ora disputados na quadra do Ginásio de Esportes, ora no campo da Guaraense, eram festivos. Quem conheceu e conhece as turmas confirma que eram, sim, festivos – mas entre aspas. E bota aspas nisso, porque sair derrotado não agradava ninguém!

Passado pouco mais de um mês de sua morte, ocorrida no dia 2 de dezembro último, a Prefeitura e a Secretaria de Esporte e Lazer vão homenagear Júlio César de Souza na cerimônia de abertura da 14ª Copinha de Futebol Infantil, na noite deste sábado, 11 de janeiro, no Ginásio Municipal, pela longa trajetória e pela reconhecida identificação de Cesinha com o futebol de Guará.